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Um dia desses uma pessoa querida me falava de um livro*. Este livro fala sobre uma invenção que mudou completamente a face da experiência humana neste planeta: as cadeiras.

Basta passar um minuto pensando na vida dos nossos antepassados para dar-nos conta de que a vida de antes exigia dos nossos corpos uma rica gama de movimentos. Produzíamos tudo com as nossas próprias mãos e, com elas, construíamos nossas próprias casas, plantávamos e colhíamos os nossos alimentos, fabricávamos nossos utensílios… até mesmo o fogo nós fazíamos apenas com elas, sem o auxílio dos isqueiros, querosene e fósforos.

 

Neste livro, o autor nos lembra de que os glúteos – sim, os glúteos, os músculos das nossas bundas – não foram fabricados para sentarmos sobre eles. Não. Sua força existe para que possamos subir montanhas, atravessar rios, carregar nossas crianças, fugir dos predadores – sua força existe para impulsionar os nossos saltos!

 

Mas não. Inventamos de criar cadeiras. E, com as cadeiras, instituiu-se o sentar. E, no que sentamos, nos acomodamos. Diminuíram-se as jornadas. Criamos máquinas que “facilitam” as nossas vidas, que as tornam mais cômodas e confortáveis. Inventamos os automóveis, trens, aviões e, assim, de conquista em conquista, a modernidade não apenas transformou a nossa noção de conforto como acabou por aposentar os nossos glúteos que, presos à cadeiras e sofás, forçam os nossos corpos a adaptarem-se à posições para as quais eles não foram desenhados ao passo em que exclui da nossa vida movimentos  que, ao contrário, são essenciais para a manutenção da força e mobilidade do sistema.

 

Se antes nos movimentávamos constantemente e precisávamos de todo o nosso corpo engajado no enfrentamento das jornadas de meses até chegarmos em outras terras para explorarmos o mundo, agora, basta-nos uma cadeira em frente à um computador. Se antes precisávamos subir nas árvores para colher seus frutos – e, de lá, ver o mundo por outros ângulos – e precisávamos subir o morro para buscar água no poço ou descer o vale para encontrar o rio – e, de lá, ver outras paisagens, respirar em diferente pressão, observar outras vistas -, hoje, sentados nas cadeiras, temos apenas a vista de um ponto. E assim segue a reflexão do autor do tal livro – de tanto ficarmos sentados, também sentou o nosso pensamento. Genial. Simplesmente genial. Gente sentada produz pensamento sentado. E pensamento sentado carece de movimento. E tudo o que carece de movimento, carece de oxigênio, de fluxo sanguíneo, de energia circulando.  O pensamento sentado é preguiçoso e, portanto, simplista. Sendo preguiçoso e simplista, não dá conta da complexidade da vida, das relações, do corpo e do movimento. Pensamento sentado é pensamento estagnado. E, já diz a sabedoria chinesa, a estagnação é o oposto da paz.

 

A sabedoria chinesa nos lembra que paz é movimento. O hexagrama da estagnação do I Ching é o oposto do da Paz. No primeiro, O céu está acima da terra. Tudo estático, na ordem que impõe a gravidade. E o que é estático é estagnado. Basta olhar, como ensina um dos meus professores, Roberto Crema, uma poça de água parada – a água imóvel é quente, suja e vira lar para as larvas. Já no hexagrama da paz, a terra está acima do céu. Pois assim, pela força da gravidade, tudo está sempre em movimento – o céu quer subir, a terra descer.

 

Paro aqui para uma ressalva acerca do óbvio – não estou, com isto tudo, dizendo que não colhemos também bons frutos da vida moderna nem que todos os pensamentos de todos os que se sentaram são vazios e desimportantes. Num mundo que carece enormemente de interpretação de texto e capacidade de pensar simbolicamente, faz-se necessário explicitar que tirei como que uma licença poética para falar sobre o tema e que nem tudo o que escrevo deve ser compreendido de forma literal.

 

Recado dado, seguimos jornada… quero aqui refletir um pouco sobre como a prática do movimento, da forma ampla e profunda que o nosso professor Ido Portal traz, é capaz de reverter os resultados desta jornada rumo ao sedentarismo ou à especialização do corpo em alguma modalidade específica, já que ambos os caminhos comprometem o funcionamento integral do corpo embora, obviamente, qualquer tipo de especialidade é melhor do que nenhuma.

 

Se voltarmos lá em cima para a lembrança da vida dos nossos antepassados, muito rapidamente nos daremos conta de que, para que nós sobrevivêssemos neste planeta, nossos ancestrais precisaram ser generalistas no que se refere ao movimento. Enquanto a especialidade dos peixes é nadar, dos macacos é se pendurar e saltar, dos guepardos é correr, etc, o ser humano precisou desenvolver a capacidade de transitar pelo mundo, de executar os mais diversos gestos motores da forma mais ampla e complexa possível para sobreviver. Nosso corpo foi desenhado para fazer tudo isto embora, como nos lembra Ido Portal, nós nunca alcançaremos a maestria dos animais nas suas especialidades. Seria lógico que, ao desenvolver uma cultura que minimiza incrivelmente a nossa necessidade de movimentar-nos, seguíssemos em busca de práticas que nutrissem toda a nossa complexidade, todas as partes do nosso sistema.

 

Mas não. De novo, não. Entramos numa de querer especializar a exploração deste sistema incrível que é o nosso corpo. De querer ser o melhor em algo específico, muitas vezes custe o que custar. E custou. Algo que o Ido sempre fala me toca bastante – ele fala sobre como o nosso corpo é genial e sobre como ele te fará o melhor em fazer o que quer que você queira fazer. Mesmo que seja sentar no sofá e comer pipoca. Para que seu corpo seja perfeito para sentar no sofá, ele calcificará a sua coluna para te proporcionar uma experiência “mais confortável”. Se tudo o que você quer é praticar Tai Chi (prática que, com muitas outras, fortalece o corpo apenas no alinhamento “correto” mas que, por não explorar posições fora destes eixos, acaba por enfraquecer o corpo em ângulos menos óbvios), ele também irá cobrar o seu preço. Toda e qualquer prática que dirige-se apenas a alguns grupos musculares através de alguns tipos de movimentos cobrará o seu preço.

 

Há um tempo atrás li um artigo que falava de uma pesquisa feita com um grupo de homens cuja rotina incluía uma série de atividades físicas. Uma parte do grupo começou a nadar alguns mil metros (não lembro exatamente quanto) por dia, além de seguir nas atividades regulares. O grupo controle permaneceu apenas com as atividades regulares. O funcionamento físico e dos órgãos dos participantes da pesquisa foram avaliados antes e após o período de testagem e o que os pesquisadores constataram é que, no grupo que nadou durante este período, houve um aumento significativo da capacidade cardíaca. Ao mesmo tempo, no mesmo grupo, na mesma proporção em que houve um aumento da capacidade cardíaca, houve redução da capacidade renal. Se exigirmos do nosso corpo, construído para fazer de tudo um pouco, um esforço constante e excessivo para o qual ele não foi desenhado – seja ele nadar ou alongar-se passivamente excessivamente, ou correr, etc – alguma parte do sistema precisará se adaptar e fortalecer às custas de outra parte do sistema, que sentirá o impacto.

 

Ao ampliarmos a nossa perspectiva de movimento, incluindo na nossa prática aqueles que nos tiram do alinhamento, que fortalecem os elos fracos ao invés de apenas fortalecer os ângulos e grupos musculares que estão dentro do padrão, que forçam o sistema a mandar sangue – e, logo, oxigênio – para áreas do corpo que são comumente pouco movimentadas em função de um protecionismo que chega a ser quase um tabu (coluna, pescoço, joelhos, ombros, etc), que reabilitam o nosso corpo à posições para as quais ele foi desenhado (cócoras – que, antes da invenção da cadeira, era a nossa maneira de descansar -, pendurar-se, etc), ampliamos o repertório de movimento do nosso corpo. E ao ampliarmos o nosso repertório de movimentos, um universo inteiro de possibilidades se abre diante de nós.

 

O processo, como ensinado por Ido Portal, consiste em primeiro isolar movimentos – para ganhar força, aprender a proteger e a reabilitar o corpo – para que possamos integrar os movimentos que foram aprendidos no primeiro momento, aumentando gradualmente a complexidade para, então, fazer do movimento arte! A arte de improvisar! De botar a criatividade, a complexidade e o corpo para brincar livremente.

O porto de chegada desta jornada – metaforicamente falando, já que ela traz infinitas possibilidades – não é a maestria de um tipo de movimento. Não é ser o mais incrível em acrobacias ou em “locomotion” ou força de membro superior ou qualquer outra coisa. Não é nem o especialista que, como diz Roberto Crema, é aquele estranho ser que sabe quase tudo sobre quase nada, nem o generalista, aquele estranho ser que sabe quase nada sobre quase tudo. É o que o Ido chama de fingerprint, a impressão digital. O porto de chegada é  ser a melhor versão de si mesmo. É desfrutar da criatividade e da liberdade de ser quem se é e poder mover o corpo da forma como ele melhor pode se expressar. Improvisar, poder criar e explorar livremente pois se construiu um corpo forte, capaz de te levar para onde desejar ir.

 

E, então, estaremos novamente explorando as vistas de outros pontos, enxergando as mesmas coisas com diferentes olhares e perspectivas. Teremos pensamentos pulantes, rastejantes, floreantes, escalantes e girantes…………. e, claro, teremos novamente os nossos glúteos para, novamente na história da humanidade, impulsionar os nossos saltos!

 

 

* O pensamento sentado – sobre glúteos, cadeiras e imagens. Norval Baitello Junior

 

Isabela Crema – Psicóloga, educadora e aprendiz de movimento.

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